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Prima e madrinha do primeiro casamento. Eu. Mas alguém ainda se lembrará do meu pobre primo, o Procurador Santos Alves do Eurojust? Morreu em Março, está quase a fazer um ano, e mais parece que nunca existiu. A mim me compete preservar a sua memória, porque foi a mim que ele contactou pouco antes de morrer, numa missiva de carácter praticamente testamentário. Inteligente, sensível, trabalhador e íntegro, alertava-me para o rio de lixo em que estava transformado o nosso país, para a desilusão que sentia face à justiça e para as tenebrosas garras do poder que ameaçavam o indivíduo e a liberdade:
Temo pelos meus, os mais próximos, mas também por ti, pelos teus pais e irmão. Vós sois a minha segunda família. [...] e quando ataca o Estado fá-lo sempre em várias frentes concomitantemente, para que todos pela força do medo, da dor, da cobardia ou da ambição se votem aquele silêncio que até os sussurros impede.
Respondi-lhe que o poder corrompe mas que também cega e, por isso, um dia falha inevitavelmente, e as conspirações são descobertas, porque os seus actores se metem em buracos factuais de onde não conseguem sair.
Éramos muito parecidos em muita coisa, como se vê nestas profecias em que ambos acertámos. Ele já está morto. Os meus pais e irmão sofrem. Espero não ir eu a seguir.
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