Sunday, 21 February 2010

True Blue

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O azulejo é uma das idiossincrasias culturais lusitanas. Não é um mosaico qualquer, é branco com pinturas azuis, daí o nome.
A gravura acima reproduz a batalha do rio Granico, o primeiro grande confronto entre Alexandre e os persas, e encontra-se no Museu Nacional do Azulejo, local que bem merece uma visita ao vivo e outra online:
A última campanha publicitária das lojas EL CORTE INGLÉS em Portugal usa os azulejos de forma requintada, transformando-os em trajes de cerimónia (tecidos, jóias, tatuagens) inserindo o corpo feminino na arte decorativa:
Na foto principal, na cauda do vestido é visível o azulejo da batalha de Granico:
Obviamente que fiquei agradada com tal circunstância alexandrina. E depois meditei no enorme significado que poderá ter uma mulher cobrir o corpo com os feitos de um homem. Denotará admiração, certamente, talvez até amor. O equivalente a um homem que guarda junto à pele uma recordação da amada. Ambos actos são provas de fidelidade, true blue diz-se em inglês, quem sabe se o verdadeiro valor simbólico do azulejo.
Porém, esta prova de devoção masculina terá mais importância do que a feminina. Enquanto a admiração feminina será suficiente para a maioria dos homens, tal não acontecerá com a maioria das mulheres, porque, como bem escreveu Molière, la grande ambition des femmes est d'inspirer l'amour.
Ocorreu-me, a propósito, a expressão irónica desse desejo irrealista e contraditório (a procura de um ideal que dilacera muitas mulheres: querer ser amada acima de tudo, mas sem atitudes possessivas e obsessivas da parte do amado) na mais famosa canção da diva do jazz, Nina Simone, nascida faz hoje 77 anos:
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P.S. 1 de Março:
Existem muitas canções sobre a verdade azul, essa revelação infalível do amor, do sonho, da eternidade. Aqui fica uma das mais recentes em português:

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P.S. 3 de Março:
Se o azulejo é português, o azulete é espanhol (por cá é conhecido por anil). Descobri a magia do azulete pela mão da minha querida tia espanhola já falecida, a irmã mais velha da minha mãe, uma mulher de extraordinário dinamismo. Lembro-me tão bem: lá estava ela a deitar azulete na água, e o pó lá se ia dissolvendo e a água ia ficando toda azulinha. E de seguida, toca de pegar na roupa branca e mergulhá-la lá dentro, e a criança que eu era, que até então tudo observara silenciosamente, não resistiu a soltar uma exclamação de perigo, que provocou uma sonora gargalhada na minha tia: Es el azulete que branquea, ninã. No te preocupes. Luego verás. E tinha razão, que a roupa já amarelada regressou ao branco original. Quem sabe se o azulete não fará parte de uma próxima campanha publicitária do El Corte Inglés em Portugal, talvez na secção de detergentes. É que o true blue também lava mesmo mais branco.
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